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Jamal Khashoggi desaparece na Turquia

Jamal Khashoggi desaparece na Turquia

Conteúdo postado em 16/10/2018

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O desaparecimento do saudita Jamal Khashoggi desencadeou uma disputa diplomática entre a Arábia Saudita e a Turquia, um alvoroço bipartidário no Congresso dos Estados Unidos, tremores de incerteza em Wall Street e no Vale do Silício sobre como lidar com a Arábia Saudita e um barulho entre a Casa Branca e seu aliado árabe mais próximo.

 

Na manhã de segunda-feira, o presidente Trump disse no Twitter que ele havia acabado de discutir o caso com o rei Salman, que negou qualquer conhecimento do que aconteceu com Khashoggi, e que estava "enviando imediatamente" o secretário de Estado Mike Pompeo para se encontrar com o rei. Mais tarde, em breves observações aos repórteres, ele disse que, de sua conversa com o rei, “me pareceu que talvez esses assassinos pudessem ser desonestos - quem sabe”.

 

Autoridades norte-americanas especularam que, se a Arábia Saudita confirmar suspeitas de que Khashoggi foi morto, ele proporia que elementos nocivos agissem sozinhos, não sob ordens dos mais altos níveis de poder do reino. Autoridades turcas descreveram um terrível assassinato com agentes sauditas desmembrando o corpo para serem descartados.

 

Organizações de notícias turcas relataram na segunda-feira que a Arábia Saudita abriria seu consulado para uma busca por investigadores dos dois países - algo que o reino prometeu antes, mas ainda não permitiu. E o rei Salman, da Arábia Saudita, teria ordenado aos promotores sauditas que abrissem sua própria investigação.

 

O furor sobre Khashoggi, visto pela última vez entrar no consulado saudita em Istambul, prejudicou gravemente a imagem do príncipe Mohammed bin Salman. O príncipe herdeiro, 33, trabalhou duro para se apresentar como um reformador determinado a abrir a cultura e a economia do reino, mas o desaparecimento de Khashoggi está minando os esforços do príncipe Mohammed para atrair empresas de tecnologia e investidores de Wall Street para a Arábia Saudita da dependência do petróleo.

 

O caso complexo e confuso levanta uma série de questões importantes, algumas com respostas prontas e outras sem:

 

Quem era Khashoggi? Por que Washington está reagindo tão fortemente a esse desaparecimento?

 

Khashoggi, que tinha 59 anos quando desapareceu, era bem conhecido e apreciado por jornalistas e diplomatas que viajaram para o reino.

 

Ele havia trabalhado nas embaixadas sauditas em Washington e em Londres e alguns suspeitavam que ele também tivesse trabalhado para a inteligência saudita. Então, ao longo de anos na mídia saudita, ele se estabeleceu como uma espécie de porta-voz não oficial da família real.

 

Sua tendência independente e empatia pela perspectiva ocidental fez dele um contato excepcionalmente importante para jornalistas estrangeiros e diplomatas que buscavam entender a perspectiva real.

 

Então veio Mohammed bin Salman, que se tornou o príncipe herdeiro no ano passado e consolidou o controle incomparável sobre as alavancas de poder dentro do reino.

 

Depois disso, Khashoggi sentiu que não havia mais espaço na Arábia Saudita nem mesmo por seu grau relativamente modesto de independência. Ele se mudou, então, para a Virgínia, tornou-se colunista do The Washington Post e se reinventou como o mais proeminente crítico do príncipe herdeiro no Ocidente.

 

Qual foi a última vez que Khashoggi foi visto em público?

 

O Sr. Khashoggi entrou no Consulado da Arábia Saudita em Istambul por volta das 13h15 da terça-feira, 2 de outubro, para buscar um documento.

 

Sob o peso de seu exílio voluntário da Arábia Saudita, seu casamento terminou em divórcio e, desde então, ele ficou noivo de uma mulher turca. Khashoggi precisava, pois,  da certificação das autoridades sauditas de seu divórcio para que ele pudesse se casar novamente na Turquia. O casamento foi planejado para o dia seguinte.

 

As autoridades turcas divulgaram imagens de vídeo dele entrando no consulado, mas dizem que não há nenhum dele saindo. Os sauditas, embora insistissem em deixar o consulado em segurança, não ofereceram nenhuma prova disso.

 

A noiva do Sr. Khashoggi esperou por ele fora do consulado por horas.

 

Se Khashoggi foi morto ou seqüestrado por agentes sauditas, o príncipe Mohammed teria que ter autorizado o plano, dizem especialistas em trabalho interno do reino.

 

O príncipe mostrou pouca tolerância para os críticos do governo saudita, e muitos dos que se manifestaram foram presos. Portanto, é razoável supor que ele não era fã de Khashoggi.

 

Desde que Khashoggi desapareceu, também ficou claro que ele tinha laços estreitos com a Irmandade Muçulmana, um movimento islâmico internacional que nas últimas décadas abraçou as eleições como a melhor maneira de trazer mudanças para a região - outra razão pela qual o príncipe pode ter se sentido hostilizado por ele.

 

Até recentemente, a Arábia Saudita recebia membros da Irmandade Muçulmana que fugiam da perseguição em outros estados árabes, especialmente no Egito. As revoltas da Primavera Árabe convenceram, portanto, os líderes da família real de que a Irmandade os ameaçava também. Desde então, a Arábia Saudita declarou o grupo uma organização terrorista.

 

As agências de inteligência dos Estados Unidos teriam interceptado comunicações sauditas sobre o possível sequestro de Khashoggi a pedido do príncipe herdeiro, de acordo com um ex-funcionário americano. Mas não há indicação de que essas discussões estejam relacionadas à visita de Khashoggi ao consulado.

 

Abdução ou homicídio de Khashoggi?

 

É aqui que o mistério começa. Autoridades turcas, falando sob condição de anonimato, disseram que seu governo tem provas detalhadas de um assassinato sangrento, que eles dizem que a liderança saudita ordenou.

 

No dia em que Khashoggi desapareceu, 15 agentes sauditas invadiram Istambul em dois jatos particulares alugados por uma empresa com laços estreitos com o príncipe herdeiro e o Ministério do Interior saudita, dizem os turcos. Os agentes esperaram por Khashoggi dentro do consulado e o mataram dentro de duas horas de sua chegada, segundo as autoridades turcas.

 

Entre os agentes sauditas, havia um médico especializado em autópsias, e o grupo levaram uma serra de ossos para o consulado, que teria sido usada para desmembrar Khashoggi, segundo as autoridades turcas. Mas os turcos ainda não divulgaram suas descobertas, algumas das quais podem vir de uma vigilância eletrônica secreta.

 

O presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia, um amigo pessoal de Khashoggi, repetidamente exigiu uma explicação dos sauditas, mas não fez acusações específicas.

 

O príncipe Mohammed e outras autoridades sauditas negaram qualquer conhecimento sobre o paradeiro de Khashoggi, insistindo sem evidências de que ele deixou o consulado livremente.

 

Se a Turquia tem provas, por que não as mostra isso?

 

É aqui que o mistério passa da investigação criminal à intriga internacional. Autoridades turcas sugerem que até agora têm retido a evidência para evitar a exposição de fontes de inteligência, que podem incluir informantes humanos ou vigilância eletrônica.

 

Também não está claro se a Turquia compartilhou suas evidências com aliados como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha.

 

A inteligência turca muitas vezes coopera intimamente com as agências de inteligência ocidentais e os turcos poderiam, presumivelmente, compartilhar suas provas com esses parceiros sem expor suas fontes.

 

Compartilhar as evidências com os governos ocidentais - não apenas descrevê-los - aumentaria a pressão sobre a Arábia Saudita para explicar mais sobre o destino de Khashoggi.

 

Especialistas apontam para outra explicação, mais cínica, para a reticência da Turquia em divulgar evidências: ela pode buscar discretamente algum tipo de acordo com a Arábia Saudita que possa impedir a divulgação completa.

 

A Turquia e a Arábia Saudita são rivais regionais em lados opostos de uma disputa ideológica sobre o islamismo político. Mas até agora, os dois países têm trabalhado arduamente para superar suas divergências, no interesse de trabalhar juntos em áreas de interesse comum, como no caso da guerra civil na Síria.

 

Trabalhando sob uma crise econômica provocada por empréstimos excessivos, a Turquia não pode permitir um longo conflito com um parceiro comercial rico como a Arábia Saudita. Pode até receber ajuda ou investimento saudita.

 

Como se movem as peças importantes desse tenso jogo de xadrez?

 

Muitos analistas com experiência na região especulam que a corte real da Arábia Saudita poderia determinar o desaparecimento ou morte de Khashoggi em um "elemento nocivo" dentro dos serviços de segurança da Arábia Saudita.

 

A Turquia poderia aceitar essa explicação, ambos os lados poderiam seguir em frente, e o mundo nunca saberia a verdade sobre quais provas, se as houver, das autoridades turcas.

 

O presidente Trump deu sinais mistos sobre seu interesse no caso Khashoggi.

 

Por um lado, ele observou claramente que Khashoggi não era cidadão dos Estados Unidos e que seu desaparecimento ocorreu longe do solo americano. Ele também descartou várias vezes o corte de armas na Arábia Saudita, alegando que esses contratos trazem dinheiro e empregos para os Estados Unidos.

 

Por outro lado, Trump prometeu durante o fim de semana que haveria "severa punição" se a Arábia Saudita provasse ter matado Khashoggi.

 

Essa ameaça provocou uma reação extraordinária dos sauditas. Se a Arábia Saudita "receber qualquer ação, responderá com maior ação", disse o Ministério das Relações Exteriores em um comunicado, citando o "papel influente e vital do reino rico em petróleo na economia global".

 

A Arábia Saudita "afirma sua rejeição total de quaisquer ameaças e tentativas de enfraquecê-la, seja ameaçando impor sanções econômicas, usando pressões políticas ou repetindo falsas acusações", disse o Ministério das Relações Exteriores.

 

A possibilidade de uma divergência entre Trump e Príncipe Mohammed sobre Khashoggi é notável, porque a administração Trump abraçou a Arábia Saudita como seu principal aliado árabe.

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